Expectativa é igual paçoca: do nada tudo se esfarela

Acredito que em algum momento você, que lê este texto agora, tenha se deparado com dicas sobre os efeitos terapêuticos do ato de escrever: ajuda a organizar os pensamentos, a acalmar a cabeça e a aliviar o coração. Há pessoas que sugerem que escrevamos as angústias ou o que nos incomoda de forma aberta, sem pudores, e que após descarregarmos o coração possamos destruir a escrita - colocar fogo no papel, apagar o arquivo de texto, jogar o exercício de um e-mail na lixeira e esvaziá-la. 

Vou começar este texto da forma como meu avô paterno começava a contar seus causos. E era assim: "certa feita..." 

Certa feita, há bastante tempo - o bastante para que ter preguiça de procurar -, eu escrevi uma coisa que tinha como título algo como "sonhos premonitórios". Era sobre um sonho que eu havia tido com um amigo de quem eu não tinha notícias há muito, muuuuito tempo. Pelas engrenagens da vida o nosso contato se perdeu. Eu sentia uma saudade danada das conversas que tínhamos. No sonho havíamos nos reencontrado e parecia que os anos de distância não haviam causado qualquer tipo de efeito prejudicial: parece que havíamos conversado pela última vez no dia anterior, que o elã (gostou dessa, heim leitor?) dos nossos papos não havia passado por qualquer prejuízo. Desejei que fosse um sonho premonitório, um sinal de um reencontro pelas teias virtuais. 

Acordada, eu sonhava em um dia poder retomar as conversas e a vivacidade delas. Faziam-me muito bem. 

Acontece, meus queridos, que a vida é a caixa de bombons e, como o Forrest Gump nos ensinou, ela é uma caixa de bombons de onde a gente nunca sabe qual vai retirar. Pode ser um bombom Lindt recheado com licor; mas também pode ser um bombom Caribe, aquele que sempre sobra na caixa. 

Na caixa de bombons da vida eu retirei um Caribe... 

As redes sociais são os lugares onde é possível retomar contatos que a distância física e a do tempo afastaram. Mantenho as minhas redes por duas razões primordiais. Ou três, na verdade: consigo manter meu vínculo com pessoas queridas da minha vida e que estão longe de mim porque elas moram fora do Brasil, ou também não moram mais em São Paulo ou, ainda, se estão lá vivem em cidades distantes do meu radar de alcance quando vou pra lá; mantenho porque tenho acesso a páginas de divulgação de eventos, de editoras, de notícias; e mantenho por causa dos memes 😊

A rede social possibilitou que reencontrasse esse meu amigo, e minha expectativa foi a de que a distância dos anos não tivesse afetado muito o nosso contato. Mas, como o título desta postagem sugere, a minha expectativa se esfarelou tal qual aquela paçoca-rolha que a gente abre lenta e cuidadosamente, mas na hora de saborearmos ela se espatifa e cai tudo no chão. 

Percebi que esperava demais, talvez eu sonhasse que as coisas seriam da mesma forma que um dia foram; talvez apenas eu visse naquela amizade um valor enorme. Também não sou a mesma de muitos anos atrás assim como ele também não é, e como os Titãs cantam em Go Back 

"Não é você 
Nem sou mais eu 
Adeus meu bem 
Adeus, adeus 
Você mudou 
Mudei também" 

Mandei uma mensagem genuinamente contente por saber que uma oportunidade bacana havia aparecido (sim, sou uma emocionada que fica bem contente com as coisas boas que acontecem àqueles que são importantes para mim), e recebi como resposta isso aqui: 👍

Gente, eu odeio esse emoji com todas as minhas forças, porque eu acho que ele é o cúmulo do descaso ou da pouca importância dada ao que você escreveu. A pessoa não se dá ao trabalho de responder, apenas clica no maldito sinal do dedão fazendo positivo. Sei que as pessoas têm suas demandas, mas não toma tempo escrever um "valeu!" ou "obrigado!". Pode ser que eu espere demais, porque não me imagino respondendo a uma mensagem de alguém faceiro por algo que me aconteceu com 👍.

Tenho pensado bastante desde ter "positivado". Talvez eu possa representar mais um incômodo do que uma faceirice. Acho que não é mais ele, mas também não sou mais eu, por isso adeus meu bem. Adeus e adeus. Concluí que preciso adotar a máxima do Barão de Itararé que dizia "De onde menos se espera, daí é que não sai nada".

Mando um emoji pra ele, esse aqui 🙏. Um agradecimento pela libertação de um tolo sonho premonitório que tive um dia, e também os votos de que tenha sucesso no que trilhar. 
Quanto a mim, tenho o desejo cada vez mais forte de parar de pegar Caribe da caixa de bombons da vida. Torçam por mim.

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